“Estamos vendo a possibilidade de um novo cultivar de mandioca para os agricultores do Estado. Ainda está em fase experimental, mas, após a validação, poderá se tornar uma nova opção para o produtor.” A afirmação é do pesquisador Eduardo Aguiar, do Cepaer (Centro de Pesquisa e Capacitação da Agraer), que apresentou o clone IAC 265-97 durante o Dia de Campo da Mandioca, realizado nesta quinta-feira (29), em Campo Grande.
Desenvolvido em parceria com o Instituto Agronômico de Campinas (IAC), o material está em fase experimental e apresenta potencial para ampliar as opções de mandioca de mesa disponíveis aos agricultores sul-mato-grossenses. “O clone ainda não é uma variedade. Precisamos repetir os experimentos e compará-lo com outras cultivares por, no mínimo, três anos, para comprovar sua produtividade e qualidade. A previsão é concluir essa etapa até o final deste ano ou no início de 2027”, explica o pesquisador. Após a validação e o cumprimento dos procedimentos de registro, o material poderá ser disponibilizado aos agricultores como cultivar.
A diferença entre um clone em avaliação e uma cultivar validada está na comprovação de seu desempenho agronômico. O clone é um material vegetal selecionado e multiplicado para preservar suas características, mas precisa passar por experimentos comparativos que demonstram sua produtividade, qualidade das raízes e adaptação às condições de cultivo. “Ainda não é possível afirmar que ele é superior aos demais antes de concluir as avaliações. É preciso comprovar que apresenta boa produtividade, qualidade das raízes e adaptação ao ambiente”, esclarece o pesquisador.

Atualmente, o Cepaer acompanha 14 cultivares de mandioca em experimentos de campo. Desse conjunto, cinco se destacaram pelo cultivo e adaptação às condições de solo e clima de Mato Grosso do Sul, sendo apresentadas aos agricultores durante o Dia de Campo. Entre elas está a BRS 429, desenvolvida pela Embrapa, que despertou o interesse dos participantes como alternativa para diversificar o plantio e melhorar os resultados da produção.
O interesse por novas opções já se reflete na experiência dos agricultores. Antônio dos Santos, integrante da Associação Alvorada, do Crédito Fundiário, em Bandeirantes, conheceu a BRS 429 durante a Tecnofam 2026, em Dourados. “Levei ramas e plantei no sítio. Agora, pude tirar dúvidas sobre ela com o pesquisador da Agraer. De 16 ramas em área irrigada, 13 vingaram. Agora, quero acompanhar a colheita”, relata.
Realizado pelo Governo do Estado, por meio da Agraer e Semadesc, em parceria com o Senar, o encontro reuniu cerca de 200 agricultores familiares, técnicos, pesquisadores e estudantes de municípios como Sidrolândia, Miranda, Figueirão, Bandeirantes, Dourados, Ribas do Rio Pardo, Rochedo, Jaraguari, Itaporã, Glória de Dourados, Terenos, Campo Grande, Paraíso das Águas, Nova Alvorada do Sul, Dois Irmãos do Buriti e São Gabriel do Oeste.




A programação foi distribuída em quatro estações tecnológicas, que abordaram variedades de mandioca de mesa, mecanização das operações agrícolas, controle de pragas com o uso de drones e manejo de plantas daninhas. As demonstrações apresentaram alternativas para aprimorar as práticas de cultivo, prevenir perdas e tornar a produção mais eficiente. Entre os desafios discutidos esteve o controle da mosca branca, uma das principais pragas da cultura.
Para a indígena Terena, Adriana Rodrigues, moradora da Aldeia Jaguapiru, em Dourados, a participação no evento também representa uma oportunidade de aprender com a experiência de outros agricultores e evitar prejuízos. “Mais do que saber o que dá certo, a gente vem aqui para entender o que não dá certo e como evitar problemas. Meu marido já trabalhou com mandioca, depois foi para a soja e o milho, teve prejuízo e, agora, resolveu voltar para a mandioca. Queremos aprender e buscar alternativas para melhorar nossa produção”, conta. Atualmente, o casal cultiva a raiz em uma área de sete hectares dentro da aldeia.
O diretor-presidente da Agraer, Fernando Nascimento, destacou a importância econômica e social da mandiocultura, tanto para a agricultura familiar quanto para os produtores de maior escala. “A gente fala muito de milho e soja, mas a mandioca tem uma grande extensão e importância para Mato Grosso do Sul. O Dia de Campo também traz uma palestra da Iagro sobre a defesa sanitária vegetal, como o cadastramento dos produtores e as medidas de prevenção contra doenças que ameaçam a cultura”, afirmou. Ele também ressaltou a preocupação com a vassoura-de-bruxa da mandioca, diante dos registros da doença em outras regiões do Brasil.
Representando o Senar/MS, o assessor técnico Dorly Scariot enfatizou a parceria entre as instituições e a importância de aproximar o conhecimento técnico da realidade das propriedades. “O Senar e a Agraer são parceiros para que o conteúdo apresentado faça a diferença no dia a dia do agricultor, contribuindo para que ele aplique esse conhecimento e melhore os resultados da produção”.
A relevância da mandiocultura para a economia estadual também aparece nos números. Dados do IBGE apontam que Mato Grosso do Sul produziu 1.507.693 toneladas de mandioca em 2025, em uma área colhida de 62.546 hectares. O valor da produção alcançou R$ 871,588 milhões, e o rendimento médio foi de 24 toneladas por hectare. O Estado reúne ainda 12.329 estabelecimentos produtores, conforme registro de 2017. Itaquiraí lidera a produção estadual, enquanto Sidrolândia se destaca pela presença de agricultores familiares e agroindústrias que agregam valor à raiz.
Em Sidrolândia, o beneficiamento abre caminhos para ampliar a renda e conquistar mercados. André Testolin e a esposa, Iranir Brito, mantêm há cinco anos a agroindústria "Divino Sabor", no Assentamento Flórida, onde cultivam mandioca em meio hectare. A produção abastece supermercados e programas de compras públicas, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). “Percebemos que a mandioca descascada agrega valor. O quilo, que antes vendíamos por cerca de R$ 1,50 com casca, chega a partir de R$ 5,00 descascado. Há custos com embalagens e exigências sanitárias, mas vale muito a pena”, afirma Testolin.
Aline Lira, Comunicação Agraer
Fotos: Aline Lira/Agraer
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