O candidato ao Governo de Mato Grosso do Sul João Henrique Catan (NOVO) esteve reunido com a cúpula da Santa Casa de Campo Grande apenas três dias antes de uma operação do Ministério Público colocar a administração da instituição no centro de um grave escândalo.
Catan visitou o hospital na terça-feira, dia 8 de setembro, e foi recebido pela diretoria. Na sexta-feira, dia 11, a presidente da Santa Casa, Alir Terra Lima, acabou presa preventivamente durante a Operação Antidotum, deflagrada para investigar um suposto esquema de fraudes e desvio de recursos.
A coincidência chama atenção e coloca o candidato diante de perguntas que não podem ser varridas para debaixo do tapete.
O que exatamente foi discutido no encontro? Quais integrantes da diretoria participaram? Catan recebeu informações sobre contratos, pagamentos ou sobre a situação financeira da instituição? O candidato percebeu algum sinal das graves irregularidades que já estavam sob investigação?
Segundo a versão divulgada pela Santa Casa, a reunião teria sido meramente institucional e faria parte de uma agenda aberta aos candidatos ao Governo do Estado. O discurso protocolar, porém, não elimina a necessidade de transparência diante da gravidade dos acontecimentos registrados apenas três dias depois.
Durante a visita, Catan teria conhecido projetos, demandas e questões relacionadas ao funcionamento do hospital. Até o momento, entretanto, não foram divulgadas a íntegra da pauta, a relação completa dos participantes nem uma ata detalhada do encontro.
Quem pretende governar Mato Grosso do Sul não pode se esconder atrás de fotografias institucionais e notas cuidadosamente redigidas por assessorias. Diante da prisão da presidente e de integrantes da diretoria, Catan precisa dizer publicamente o que viu, o que ouviu e quais compromissos foram discutidos dentro da Santa Casa.
A visita, isoladamente, não prova envolvimento do candidato nas irregularidades investigadas. Mas a proximidade entre o encontro e a operação torna legítima — e necessária — a cobrança por respostas.
Em uma instituição que recebe recursos públicos e presta atendimento essencial à população, silêncio, evasivas e explicações genéricas não são suficientes.
A Operação Antidotum apura suspeitas envolvendo contratos da Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande, mantenedora do hospital. De acordo com o Ministério Público, foram cumpridos seis mandados de prisão preventiva e 36 mandados de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Goiânia.
Um dos contratos investigados previa pagamentos de R$ 1,8 milhão por ano para a digitalização de prontuários, alcançando R$ 5,4 milhões em três anos. Conforme a investigação, somente no primeiro ano o possível desvio teria chegado a aproximadamente R$ 1,4 milhão.
O MPMS também apura contratos da Santa Casa Saúde com empresas que, segundo os investigadores, teriam ligação com pessoas da própria diretoria. Apenas em 2025, essas empresas teriam recebido R$ 9,6 milhões, com prejuízo estimado de pelo menos R$ 3,5 milhões.
As investigações apontam ainda que contratos, pagamentos e prestações de contas possivelmente foram ocultados do Conselho Fiscal da instituição e da Controladoria-Geral do Estado.
A fotografia de Catan reunido com a diretoria ganhou outro peso depois da operação. Aquilo que inicialmente foi apresentado como uma visita institucional agora se transforma em um episódio que precisa ser esclarecido nos mínimos detalhes.
O candidato do NOVO gosta de posar como fiscal implacável e adversário dos velhos métodos da política. Chegou a hora de aplicar a própria régua sobre si mesmo.
Catan deve esclarecer quem solicitou a reunião, quem esteve presente, quais assuntos foram tratados e se recebeu algum pedido ou proposta por parte da diretoria. Transparência não pode ser apenas um slogan utilizado contra adversários; precisa começar dentro da própria campanha.
Também chama atenção que, no dia seguinte à visita de Catan, a direção da Santa Casa tenha recebido o candidato petista Fábio Trad. A sequência de encontros políticos ocorreu justamente quando uma investigação de grandes proporções avançava nos bastidores.
A população de Mato Grosso do Sul merece conhecer toda a verdade. Diante de contratos milionários, suspeitas de desvios e prisões preventivas, encontros a portas fechadas não podem ser tratados como simples compromisso de agenda.
Os fatos investigados ainda serão analisados pela Justiça, e todos os envolvidos possuem direito à ampla defesa e ao contraditório. Isso, porém, não impede a cobrança política: João Henrique Catan precisa romper o silêncio e explicar, sem rodeios, o que foi tratado com a diretoria da Santa Casa às vésperas da operação.
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