A procura de famílias brasileiras por avaliação de autismo, Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e outros transtornos do neurodesenvolvimento cresce em ritmo acelerado, mas o acesso ao diagnóstico ainda não garante orientação sobre os passos seguintes. Para o neuropediatra Dr. Marcone de Souza Oliveira, diretor clínico da Proevoluir Clínica Integrada, em Minas Gerais, e professor de Medicina, o laudo deveria marcar o início do cuidado, e não o seu encerramento.
O cenário aparece nas estatísticas oficiais. O Censo 2022 identificou cerca de 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico declarado de Transtorno do Espectro Autista (TEA) no país, o equivalente a 1,2% da população, índice que chega a 2,6% entre crianças de cinco a nove anos. Na rede de ensino, as matrículas de estudantes autistas passaram de 294.394 em 2021 para 1.298.637 em 2025, segundo o Censo Escolar do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
Famílias mais atentas, mas também confusas
Para o Dr. Marcone de Souza Oliveira, o perfil de quem chega ao consultório mudou. "O que mais percebo de mudança em relação ao início da minha carreira, há aproximadamente 20 anos, é que as famílias têm chegado cada vez mais cedo e muito mais informadas do que alguns anos atrás", relata. Segundo ele, antes era comum atender crianças de cinco a oito anos, ainda sem diagnóstico, que já apresentavam dificuldades importantes de comunicação, aprendizagem ou comportamento.
"Isso é positivo porque, quanto mais cedo uma criança com alguma dificuldade é identificada, mais cedo podemos orientar e intervir. Mas existe também um desafio muito grande: essas famílias chegam com muita informação e, ao mesmo tempo, com muita confusão", pondera.
O médico observa que muitos pais assistem a dezenas de vídeos e montam listas de sintomas, mas lembra que o diagnóstico exige avaliar diversos fatores e excluir outras hipóteses, como deficiência intelectual, síndromes, dificuldades emocionais ou depressão, que também pode ocorrer na infância. "O diagnóstico depende de um conjunto de sintomas, da intensidade, da persistência e, principalmente, do prejuízo e do impacto que aquilo causa na vida da criança", explica.
Do laudo ao plano de cuidado
Na avaliação do especialista, a maior lacuna surge depois da consulta. "A principal lacuna acontece quando o diagnóstico é entregue como um ponto final, quando, na verdade, ele deveria ser o começo do cuidado. O diagnóstico deve ser visto como um mapa para orientar os próximos passos e ajudar aquela criança", afirma. De acordo com ele, o plano terapêutico precisa definir as principais dificuldades da criança, quais terapias são indicadas, como psicologia, fonoaudiologia, terapia ocupacional ou fisioterapia, o que muda em casa, o que deve ser alinhado com a escola e se há necessidade de medicamento.
"Outro problema é que, muitas vezes, o cuidado fica fragmentado. O médico fala uma coisa, a escola pensa diferente, os terapeutas trabalham separadamente e os pais acabam tendo que tentar organizar tudo isso em um plano de cuidado", aponta.
Para o neuropediatra, o laudo pode dar nome ao problema, mas é o plano de cuidado que mostra o caminho. Aos pais, ele deixa um conselho: "Não se tornem terapeutas dos seus filhos, mas se tornem veículos de desenvolvimento deles". "Eu não trato autismo, eu trato o autista. O pai não precisa ser especialista em autismo. Ele precisa ser especialista no próprio filho", resume.
Quando um comportamento merece investigação
O Dr. Marcone Oliveira prefere o termo desenvolvimento típico, por entender que existe o que é esperado ou não para cada fase. Birras, agitação, seletividade alimentar ou momentos de brincadeira solitária podem fazer parte desse percurso quando aparecem de forma isolada. "O que acende mais o meu sinal de alerta é a intensidade, a frequência, a persistência do comportamento e, principalmente, o prejuízo que ele provoca", detalha. A idade também pesa, já que algo esperado aos dois anos pode não ser aos sete.
A perda de habilidades exige atenção mais rápida, como a criança que deixa de falar palavras que já usava ou de responder ao próprio nome. "No desenvolvimento, o objetivo é sempre ganhar habilidades, e não perdê-las", destaca. A pergunta sugerida às famílias é direta: "Isso é apenas uma característica da minha criança ou está impedindo que ela se desenvolva, aprenda, se comunique ou participe da vida cotidiana?".
Escolas e redes sociais
O médico considera positiva a identificação precoce, mas afirma que muitas escolas ainda não conseguem converter o diagnóstico em estratégias práticas. "Não basta simplesmente matricular a criança. É preciso entender como ela aprende, quais são suas dificuldades e qual tipo de suporte realmente precisa", diz. Ele alerta ainda para o risco do rótulo: "Primeiro vem a Maria. Depois, Maria é uma criança autista. São coisas diferentes".
Diante do volume de conteúdos sobre sinais de autismo e TDAH infantil na internet, o especialista recomenda verificar quem fala, em quais evidências a informação se apoia e desconfiar de promessas de cura milagrosa. "Precisamos ser especialistas influentes e evitar que pessoas influentes passem a se sentir especialistas em assuntos para os quais não têm formação", defende. "Uma boa informação não aumenta o medo da família. Ela ajuda a pessoa a organizar o próximo passo", acentua.
O crescimento dos registros oficiais, portanto, amplia a demanda por avaliações qualificadas e por um acompanhamento que continue após o laudo. Para o neuropediatra, a meta não deve ser multiplicar diagnósticos, mas responder a uma pergunta mais útil: "Do que essa criança precisa hoje para se desenvolver melhor?". "No fim, o diagnóstico precisa ser uma ferramenta. O mapa deve abrir caminhos e não limitar as expectativas sobre a criança, independentemente do diagnóstico", conclui o médico.
Para mais informações, basta acessar:
Site oficial: https://drmarcone.com.br/
Canal do YouTube: https://www.youtube.com/@doutormarcone
Instagram: https://www.instagram.com/doutormarcone/?hl=pt-br
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