Quando uma cidade pensa no futuro, geralmente tenta responder o que vai acontecer. Mas e se a pergunta fosse outra: que futuros somos capazes de imaginar e o que essas imagens revelam sobre as escolhas que fazemos hoje? É a partir dessa provocação que será realizado, de 20 a 22 de agosto deste ano, em Paracatu, o Laboratório de Alfabetização em Futuros, experiência que abre a programação do III Seminário de Economia da Cultura de Paracatu - Olhares para o Futuro.
Realizado no âmbito da Cátedra UNESCO de Bem-Estar Planetário e Antecipação Regenerativa, vinculada ao Museu do Amanhã e à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o Laboratório propõe uma experiência de inteligência coletiva. Durante três dias, os participantes serão convidados a imaginar diferentes futuros para Paracatu, questionar as premissas que orientam essas visões e, a partir delas, voltar o olhar para o presente.
A proposta, explica a pesquisadora da Cátedra UNESCO e professora do Mestrado em Ciências da Sustentabilidade da PUC-Rio, Anna Carolina Fornero Aguiar, que, junto à Beatriz Carneiro, será facilitadora do Laboratório, não é prever o que acontecerá nem apresentar um cenário pronto para a cidade. "Não existe um único futuro esperando para ser descoberto. Existem diversas possibilidades de amanhã", completa.
A Alfabetização em Futuros utiliza essas possibilidades para compreender melhor o presente, tornando mais visíveis expectativas, valores, medos e pressupostos que influenciam as decisões.
Imaginar para enxergar novas possibilidades
Para Anna Carolina, todas as pessoas usam o futuro cotidianamente. Ao escolher uma profissão, planejar uma viagem ou fazer um investimento, por exemplo, tomam decisões no presente a partir de alguma imagem do que poderá acontecer. O Laboratório busca tornar esse processo mais consciente e ajuda os participantes a reconhecerem como constroem suas imagens de futuro, identificar as ideias que sustentam essas visões e ampliar o conjunto de possibilidades que conseguem imaginar. "Imaginar futuros não é um exercício de adivinhação. É um exercício de ampliação da percepção", afirma. A ideia é pensar nos futuros considerados prováveis e desejáveis, mas também experimentar possibilidades menos óbvias.
Para a pesquisadora, essa reflexão é importante porque as cidades produzem futuros o tempo todo. Decisões sobre infraestrutura, educação, mineração, uso do solo, cultura, formação profissional e recuperação ambiental podem gerar consequências durante décadas ou séculos. "A questão, portanto, não é se Paracatu irá se relacionar com o futuro, mas com qual repertório de futuros a cidade está tomando suas decisões hoje", destaca.
A emergência climática e as transformações no mundo do trabalho são dois dos principais eixos do Laboratório. A proposta é ir além da simples projeção de problemas e imaginar como o território pode se reorganizar diante das mudanças previstas e já em curso, quais conhecimentos locais podem ganhar importância e que soluções podem ser ampliadas.
Nesse contexto, cultura, arte e economia criativa também entram na discussão. Para Anna Carolina, esses campos não devem ser separados das agendas de clima e desenvolvimento, já que transformações sustentáveis dependem não apenas de tecnologia e investimentos, mas também de mudanças de valores, comportamentos e relações com o território. "Cultura e arte atuam sobre o imaginário, preservam memória e identidade e produzem pertencimento, podendo se conectar ao turismo, patrimônio, produção artística e novas atividades econômicas", reforça.
Retorno da pesquisadora da Unesco em Paracatu
Doutora em Ecologia pela UFMG, Anna Carolina Fornero Aguiar pesquisa temas relacionados à transição energética e aos neoecossistemas e tem trajetória ligada à mineração, restauração, impactos ambientais e cultura.
Ela esteve em Paracatu em 2025, quando apresentou a palestra "Urgência Climática e Futuro Regenerativo: Cultura, Tecnologia e Natureza em Travessia". Agora, retorna em uma posição diferente: em vez de apresentar uma visão de futuro para o território, será uma das facilitadoras do processo para que os próprios participantes construam e ampliem suas perspectivas.
"Agora, nós damos um passo diferente e, em vez de eu falar sobre esses futuros, Paracatu vai falar sobre seus próprios futuros", explica. Para ela, temas como sustentabilidade, transição energética, mineração, biodiversidade, restauração, cultura, trabalho e desenvolvimento territorial estão interligados. Por isso, o Laboratório pretende colocar em diálogo o conhecimento técnico e o conhecimento de quem vive e conhece o território.
Ao final dos três dias, a expectativa não é definir um único futuro para Paracatu, mas ampliar a capacidade de perceber possibilidades e interpretar o presente. "Eu gostaria que os participantes saíssem com mais perguntas do que entraram, mas perguntas melhores", resume Anna.
Segundo a pesquisadora, quando uma comunidade amplia seu repertório de futuros, alternativas antes invisíveis ou consideradas inviáveis podem passar a fazer parte do campo de possibilidades. "A proposta, portanto, é contribuir para que Paracatu tenha uma relação mais consciente, criativa e responsável com as transformações que já estão em curso", adianta.
Uma jornada que continua
O Laboratório é a primeira das quatro etapas do III Seminário de Economia da Cultura de Paracatu. Depois da experiência, serão realizados o Bootcamp Laboratório Futuros de Paracatu, de 2 a 4 de setembro; o Encontro de Diálogos, de 10 a 12 de setembro; e, ao final, a Missão Rio de Janeiro – Museu do Amanhã, que selecionará dez participantes das três etapas anteriores para uma experiência de imersão no Rio de Janeiro.
Em 2026, o Seminário passa a integrar oficialmente o Projeto CUTUCAR – Cultura e Turismo no Caminho Real: Educação Patrimonial e Inclusão Social, realizado pela GUIASTUR e pelo Ministério da Cultura, com patrocínio da Kinross, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet). A integração aproxima cultura, turismo, patrimônio, educação, meio ambiente e desenvolvimento em uma mesma agenda territorial.
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