
Abril é marcado por uma cor que simboliza mais do que uma campanha: representa empatia, informação e compromisso com a inclusão. O chamado “Abril Azul”, mês mundial de conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), ganha força em Mato Grosso do Sul com o respaldo da Lei Estadual 5.721/2021 , de autoria do deputado Antonio Vaz (Republicanos), que instituiu a campanha no calendário oficial do Estado.
A iniciativa está alinhada ao Dia Mundial de Conscientização do Autismo, celebrado em 2 de abril, data instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU), e reforça a importância de ampliar o debate sobre o tema, combater o preconceito e promover o respeito à diversidade.
“O Abril Azul é uma oportunidade de levar informação de qualidade à população, fortalecer políticas públicas e dar visibilidade às pessoas com autismo e suas famílias. Precisamos avançar na inclusão, garantindo direitos e oportunidades”, destaca o deputado Antonio Vaz.
Retrato do autismo em Mato Grosso do Sul
Dados do Observatório da Cidadania de Mato Grosso do Sul , com base no Censo 2022 do IBGE, ajudam a dimensionar a realidade no Estado. Atualmente, cerca de 29 mil pessoas vivem com TEA em Mato Grosso do Sul, o que representa uma prevalência de aproximadamente 1,1% da população, índice próximo à média nacional, estimada em 1,2%.

Entre os diagnósticos, há predominância masculina: 60,7% são homens e 39,3% mulheres. A maior concentração está nas faixas etárias mais jovens, com destaque para crianças de 5 a 9 anos (4,2 mil) e de 0 a 4 anos (3,4 mil), o que reforça a importância do diagnóstico precoce.

Os números dialogam com estimativas internacionais que apontam que 1 em cada 36 pessoas está no espectro autista, evidenciando o crescimento dos diagnósticos e a necessidade de políticas públicas cada vez mais estruturadas.
Diagnóstico precoce e intervenção
A terapeuta ocupacional Lilianthea Lopes Oliveira Viegas ressalta que identificar o autismo ainda na infância pode transformar trajetórias. “Quando o diagnóstico ocorre nos primeiros anos de vida, é possível intervir em uma fase de alta plasticidade cerebral, potencializando ganhos em comunicação, interação social e organização do comportamento”, explica.
Segundo ela, o acompanhamento adequado envolve não apenas a criança, mas também a família, com estratégias que favoreçam previsibilidade, autonomia e qualidade de vida. Na adolescência, o foco passa a ser o desenvolvimento de habilidades sociais, emocionais e de autonomia, preparando o jovem para a vida em sociedade.

Já a fisioterapeuta Daniella Scudler Daniel reforça que sinais como atraso na fala, pouco contato visual e dificuldades de interação devem ser observados com atenção. “Quanto antes iniciamos a intervenção, maiores são as chances de desenvolvimento das habilidades”, pontua.
Desafios e superações
Por trás dos números, existem histórias que traduzem o cotidiano de quem convive com o autismo. A servidora pública Michelle Dibo Nacer Hindo relata que o diagnóstico do filho, João Eduardo, foi também um ponto de virada em sua própria vida.

“Foi um baque muito grande, um luto. Mas, ao receber o meu próprio diagnóstico, consegui entender muitos comportamentos e reconhecer também minhas potencialidades”, conta. Hoje, ela atua como influenciadora digital e defensora da causa. “O diagnóstico não é o fim, é o começo. Precisamos ocupar espaços e exigir nossos direitos”, ressalta.
A jovem Maysa Garcia, autista e residente em Design no Ministério Público do Estado, destaca a importância da representatividade. “Compartilhar experiências ajuda outras pessoas a se identificarem, buscarem diagnóstico e se compreenderem melhor. Também ajuda a reduzir julgamentos”, explica.

Já o servidor Marcio Podolsk, pai dos gêmeos Lucas e Luís Miguel, ambos autistas, resume o sentimento de muitos familiares: “É um aprendizado diário. Eu me torno um ser humano melhor a cada dia. Tenho orgulho de ser pai deles”.
Para Ana Claudia Seles da Silva, mãe do pequeno Arthur, de 6 anos, o diagnóstico recente trouxe esperança. “Ele é uma criança alegre e carinhosa. O que eu espero é um futuro sem limitações e sem preconceito”, diz.
Mobilização
Apesar dos avanços, ainda há obstáculos significativos. A presidente da Associação de Pais e Amigos do Autista de Campo Grande (AMA-CG), Neide Salvador Pacheco, aponta a falta de profissionais especializados e a demora no acesso a atendimentos como alguns dos principais desafios.

Atualmente, a entidade atende cerca de 170 pessoas com TEA, sendo que 60% das famílias estão em situação de vulnerabilidade social, e possui uma fila de espera de mais de 700 pessoas. “Mesmo com leis e políticas públicas, ainda enfrentamos dificuldades no acesso à saúde e à educação. O preconceito também persiste. Cada autista é único, e a sociedade precisa compreender isso”, observa.
Conscientizar para incluir
Mais do que iluminar prédios de azul, a campanha propõe uma mudança de atitude. O Abril Azul busca informar a sociedade sobre o autismo, caracterizado por diferenças na comunicação, na interação social e por padrões de comportamento repetitivos, e incentivar a construção de ambientes mais acessíveis e acolhedores.
A lei estadual prevê, inclusive, a participação de órgãos públicos e da iniciativa privada em ações de conscientização, reforçando o papel coletivo na promoção da inclusão. Ao dar visibilidade ao tema, a Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul reafirma seu compromisso com políticas públicas que garantam dignidade, respeito e oportunidades para as pessoas com TEA.
Porque, no fim, compreender o autismo é também ampliar o olhar sobre o outro, reconhecendo que a diversidade não é um obstáculo, mas parte essencial da sociedade.
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