
O crachá sobre a mesa de cabeceira, antes símbolo de estabilidade, passou a ser gatilho de ansiedade. A cena, cada vez mais comum, reflete uma realidade que também aparece nos números: Mato Grosso do Sul acompanha uma tendência nacional de crescimento acelerado dos afastamentos por transtornos mentais em ritmo preocupante. A estatística ganha rosto na história de um trabalhador do setor de serviços, de 32 anos, que preferiu não se identificar. Após anos lidando com metas e cobranças diárias, ele precisou se afastar por crises de ansiedade. “Eu comecei a perder o sono, vivia em função do trabalho. Chegou um ponto em que meu corpo não respondeu mais”, relata. Segundo ele, o afastamento foi inevitável e escancarou a falta de suporte dentro da empresa.“Durante todo esse tempo, ninguém perguntou como eu estava. Só quando eu parei é que perceberam”.
No Estado, os registros mostram um salto expressivo. Em 2024, foram cerca de 9 mil afastamentos por transtornos mentais. Já em 2025, esse número ultrapassou 15 mil casos, um crescimento de quase 70% em apenas dois anos. Na prática, isso significa que um trabalhador é afastado por questões psicológicas a cada 54 minutos em Mato Grosso do Sul. Os dados do Ministério da Previdência Social mostram um cenário nacional que reforça a gravidade do problema: o Brasil superou 546 mil afastamentos por transtornos mentais em 2025, o maior número da série histórica, consolidando o problema como uma das principais causas de licença do trabalho. Ansiedade e depressão lideram os diagnósticos, evidenciando um padrão de adoecimento diretamente ligado à sobrecarga emocional, pressão por desempenho e condições de trabalho cada vez mais exigentes.

A psicóloga Giovana Guzzo Freire avalia que o fenômeno já ultrapassa o campo individual. “Não estamos diante de frescura ou modismos passageiros, mas de um cenário que revela o impacto da forma como organizamos a vida produtiva”, afirma. Psicóloga clínica e psicanalista, com mestrado em Psicologia, ela atua com foco em saúde mental e relações de trabalho. Metas inalcançáveis, cobrança constante e a lógica de comparação permanente criam um ambiente de tensão contínua. “Esse modelo gera sofrimento psíquico e desgaste emocional. A psicoterapia passa a ser fundamental para ajudar o trabalhador a ressignificar essa relação com o trabalho”, explica.
Outro ponto crítico, segundo a especialista, é o despreparo das empresas. “Já existem evidências de que investir em saúde mental reduz afastamentos, mas muitas organizações ainda não estão estruturadas para lidar com o problema”, pontua.
Confira, clicando aqui , a entrevista na íntegra da psicóloga Giovana Guzzo Freire.
A psicóloga Aletânia, que atua na área de saúde mental do trabalhador, reforça que o aumento dos afastamentos revela uma falha estrutural no ambiente corporativo. “As empresas ainda estão aprendendo a reconhecer que saúde mental é risco ocupacional. Não se trata apenas de bem-estar, mas de gestão e prevenção”, afirma. Ela alerta que ambientes com metas agressivas, alta cobrança e pouca rede de apoio favorecem o adoecimento. “Sem políticas internas consistentes, o problema se repete e tende a se agravar”, completa.
Abril Verde amplia o alerta
O avanço dos casos ocorre em meio ao Abril Verde, campanha nacional dedicada à conscientização sobre saúde e segurança no trabalho. Tradicionalmente associada à prevenção de acidentes físicos, a mobilização tem ampliado o debate para incluir também a saúde mental como parte essencial do ambiente laboral. Especialistas defendem que o momento é estratégico para ampliar políticas internas nas empresas e fortalecer ações de prevenção, acompanhamento psicológico e promoção de ambientes mais saudáveis. A dimensão do problema também é econômica. Estimativas da Organização Internacional do Trabalho indicam que transtornos mentais geram perdas de cerca de US$ 1 trilhão por ano em produtividade no mundo, mostrando que o impacto ultrapassa o campo da saúde e atinge diretamente a economia.

No âmbito estadual, o Abril Verde foi proposto pelo deputado Júnior Mochi (MDB), autor da Lei nº 5.196/2018, que instituiu a iniciativa em Mato Grosso do Sul. Desde então, abril se consolidou como um período voltado à prevenção de acidentes e doenças ocupacionais. “Quando apresentei o projeto, tinha em mente dar visibilidade a um tema que afeta milhares de famílias. O trabalho digno precisa ser seguro”, afirma o deputado. A legislação, publicada no Diário Oficial nº 9.658, de 18 de maio de 2018, também institui o dia 28 de abril como o Dia Estadual em Memória das Vítimas de Acidentes e Doenças do Trabalho.
No período, são realizadas ações como iluminação de prédios públicos, palestras educativas e campanhas de conscientização. Segundo o parlamentar, a participação da sociedade é fundamental. “Não basta que o governo atue. É preciso engajamento coletivo, investimento das empresas e compreensão de que a prevenção é o melhor caminho”, completa. Segundo o deputado, diante do crescimento do número de afastamentos, o desafio é transformar conscientização em prática, com ambientes de trabalho mais saudáveis, apoio psicológico e uma mudança cultural que reconheça a saúde mental como parte essencial da dignidade no trabalho.
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