A procura por tratamentos dentários com resultado natural registra crescimento no Brasil, terceiro maior mercado de estética do mundo, segundo levantamento do Boston Consulting Group (BCG). Dados do Conselho Federal de Odontologia (CFO) indicam que o país reúne 450 mil cirurgiões-dentistas registrados, o maior contingente da categoria no mundo. Essa demanda amplia a necessidade de laboratórios de prótese equipados com tecnologia digital e profissionais qualificados na fabricação de peças como laminados cerâmicos, conhecidos popularmente como lentes de contato dental.
A especialidade de Prótese Dentária reúne 14.285 registros entre as 24 áreas reconhecidas pelo CFO. O setor de odontologia no país emprega 727.237 profissionais, entre dentistas, técnicos em saúde bucal e técnicos em prótese dentária. A profissão de técnico em prótese foi regulamentada pela Lei n.º 6.710, de 5 de novembro de 1979, e suas atribuições foram definidas pelo Decreto n.º 87.689, de 11 de outubro de 1982. Esses profissionais transformam o planejamento feito pelo dentista em uma peça que encaixa na boca do paciente com precisão de cor, formato e resistência.
Computador desenha, mas o toque final é manual
No fluxo de produção dos laboratórios, um escâner digital captura a forma dos dentes do paciente e envia os dados para um programa de computador. O técnico desenha a peça em ambiente virtual, e uma máquina de corte automatizada recorta o formato em um bloco de cerâmica. A personalização estética, porém, continua dependendo do trabalho manual: o ceramista aplica camadas finas de porcelana, uma sobre a outra, para reproduzir a cor, a transparência e os detalhes que dão aspecto de dente natural à restauração. Ivan Pereira dos Santos, técnico em prótese dentária com 27 anos de atuação e diretor do Laboratório Excellentia, em São Paulo, explica que cada etapa influencia o resultado. "Cada cerâmica reage de um jeito no forno. Se a temperatura sobe dois graus além do indicado, a cor da peça muda e o trabalho precisa ser refeito do zero", observa.
A escolha do tipo de cerâmica varia conforme a localização do dente na boca e a cor da estrutura dental do paciente. Para dentes da frente, que ficam mais visíveis ao sorrir, os laboratórios costumam usar materiais com maior transparência, que imitam o esmalte natural. Para dentes do fundo, que recebem mais força durante a mastigação, são indicadas cerâmicas mais resistentes. Quando a combinação entre material e técnica de fabricação é adequada, a peça se integra à dentição sem que o paciente ou outras pessoas percebam a diferença.
Fotos padronizadas reduzem erros na fabricação
A comunicação entre o dentista e o técnico que fabrica a peça influencia diretamente a qualidade do resultado. A seleção de cor feita no consultório com escalas tradicionais, sob luz artificial, é apontada como uma das fontes mais comuns de insatisfação com restaurações cerâmicas. O uso de fotografias padronizadas, com iluminação controlada e escalas posicionadas ao lado dos dentes, fornece ao técnico uma base de informação mais confiável para planejar as camadas de porcelana. O compartilhamento de arquivos digitais entre consultório e laboratório também acelera o processo e reduz a necessidade de refazer peças.
Para Santos, o acesso às informações do caso antes da fabricação altera o resultado de forma mensurável. "Quando o técnico recebe boas fotos do paciente antes de começar, as decisões de cor e camadas ficam mais precisas e o retrabalho diminui", afirma.
Formação técnica acompanha novos materiais
A formação do técnico em prótese dentária no Brasil ocorre em nível técnico e inclui disciplinas como anatomia dental, materiais odontológicos e cerâmica. Como novos materiais chegam ao mercado com frequência, a atualização acontece em congressos, cursos de fabricantes e na atuação de técnicos experientes como instrutores em cursos de especialização de faculdades de odontologia. Segundo Santos, a maioria dos laboratórios trabalha com os dois métodos ao mesmo tempo. "Tem caso em que a máquina dá mais precisão no encaixe, e tem caso em que só o trabalho à mão reproduz certos detalhes de cor e transparência", observa.
O número de dentistas no país cresceu 60% em uma década, passando de 265 mil em 2014 para 450 mil em 2025, segundo o CFO. A amplição do quadro de profissionais e a evolução dos materiais cerâmicos indicam que a demanda por técnicos em prótese com domínio de tecnologia digital e trabalho manual tende a se manter nos próximos anos.
Sobre o especialista
Ivan Pereira dos Santos é técnico em prótese dentária (TPD 11682/SP), com atuação em cerâmica odontológica. Coordenou atividades técnicas em cursos de especialização em Prótese Dentária e dirige o Laboratório Excellentia, em São Paulo.
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