As cobranças automáticas em intervalos previamente definidos — como mensalidades, anuidades ou serviços por assinatura — caracterizam o modelo de pagamentos recorrentes. Nesse sistema, o cliente autoriza a empresa a armazenar os dados de pagamento e a realizar débitos sucessivos conforme o cronograma acordado, dispensando novas confirmações a cada transação.
Dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), divulgados pelo Diário do Comércio, mostram que o setor de cartões movimentou R$ 1,2 trilhão no quarto trimestre de 2025 — um crescimento de 9,3% em relação ao mesmo período do ano anterior — e o volume de pagamentos recorrentes com cartão chegou a R$ 141,9 bilhões, alta de 34%.
Pedro Souza, CEO e fundador da Glin, empresa especializada em soluções de pagamentos internacionais e checkout, avalia que o crescimento do modelo de pagamento recorrente no Brasil, especialmente após a pandemia, tem sido impulsionado pela expansão de modelos de negócio baseados em assinatura e pela evolução da infraestrutura de pagamentos no país.
"A cultura de assinatura consolidou-se. Plataformas SaaS, infoprodutos, streaming e serviços de saúde digital que dependem de cobrança recorrente para garantir previsibilidade de receita e escalabilidade são fatores importantes, ao lado das soluções acessíveis de billing oferecidas por fintechs e do amadurecimento do Pix, como o avanço do Pix Automático", comenta o especialista.
De acordo com o executivo, o modelo de cobrança recorrente tem se consolidado em diferentes segmentos. O movimento é liderado pelas empresas de SaaS, seguido pela educação digital, que tem adotado a recorrência como principal modelo de monetização. Serviços de streaming e entretenimento também reforçam a cultura de assinaturas no dia a dia do consumidor brasileiro, enquanto aplicativos de mobilidade e entrega passaram a criar clubes de benefícios baseados nesse formato.
Impactos e desafios técnicos
O fundador da Glin aponta que o principal impacto estratégico do modelo recorrente para empresas que desejam previsibilidade de receita e escalabilidade é a expansão da base de clientes sem a necessidade de crescimento proporcional da estrutura operacional, devido à automação do ciclo de cobrança.
"Além disso, a empresa passa a trabalhar com métricas de receita recorrente, o que torna o planejamento financeiro mais sólido e facilita decisões de investimento e crescimento. Outro ponto importante é o aumento do lifetime value do cliente — a relação contínua gera mais receita ao longo do tempo, e manter um cliente ativo custa significativamente menos do que conquistar um novo", acrescenta o CEO.
O especialista destaca que, apesar de o ecossistema ter evoluído, os protocolos de segurança estarem mais acessíveis e as regulamentações darem mais clareza ao mercado, a implementação de sistemas automatizados de cobrança no país ainda enfrenta desafios técnicos e regulatórios, como a gestão do ciclo de vida do pagamento e dispor de criação de fluxos de cancelamento transparentes.
"O consumidor tem direito de interromper a assinatura a qualquer momento e lidar com cartões expirados, e as falhas por saldo insuficiente exigem construir uma lógica de retentativa inteligente que recupere receita sem gerar atrito com o cliente. A tokenização dos dados de cartão também é fundamental para garantir que os dados do cliente sejam armazenados e utilizados com segurança", reforça o empresário.
Souza enfatiza que, no âmbito regulatório, a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) trouxe exigências sobre o tratamento de dados sensíveis de pagamento, e as regras do Banco Central sobre o Pix Automático ainda estão amadurecendo, o que exige atenção constante das empresas que operam nesse espaço, segundo ele.
Tendências no Brasil
Para o CEO da Glin, a primeira tendência a transformar o cenário de pagamentos recorrentes no Brasil nos próximos anos é o Pix Automático — modalidade anunciada pelo Banco Central (BC) em 2025, que permite débitos recorrentes via Pix com autorização prévia do consumidor. Para ele, a ferramenta tem potencial de reduzir drasticamente a fricção e a inadimplência.
"Outra tendência relevante é o uso de inteligência artificial (IA) na orquestração de cobranças, permitindo que o sistema escolha automaticamente o meio de pagamento com maior probabilidade de aprovação a cada ciclo, reduzindo o churn involuntário — perda do cliente por falhas de pagamento ou motivos que não envolvem decisão de cancelamento", afirma Souza.
O empresário também identifica uma expansão do modelo cross-border — operações de pagamento entre países —, com cada vez mais empresas internacionais buscando cobrar de forma recorrente no Brasil usando meios de pagamento locais como Pix e cartão nacional.
"O Brasil tem especificidades que tornam inviável simplesmente replicar modelos internacionais; por isso, é fundamental estruturar sistemas de pagamento recorrente adaptados. Esse movimento ainda está no começo, e as empresas que se posicionarem agora com infraestrutura adaptada à realidade brasileira podem ter uma vantagem competitiva relevante", observa o CEO.
Conforme analisa o executivo, o brasileiro está acostumado a pagar por Pix e a parcelar no cartão. Segundo ele, embora um pagamento recorrente seja naturalmente parcelado ao longo dos meses, a experiência precisa refletir os meios de pagamento locais. "A maioria da população não possui cartão de crédito internacional; oferecer apenas um gateway internacional exclui uma parcela enorme do mercado".
Souza ressalta que, para empresas estrangeiras que vendem para o Brasil, há ainda a camada de câmbio e liquidação — receber em reais, converter e repatriar a receita — que exige uma infraestrutura financeira adaptada à realidade local.
"Sem isso, a empresa fica refém de soluções genéricas que não entregam conversão real no mercado brasileiro. Isso reforça a necessidade de soluções construídas de dentro para fora, não de fora para dentro", finaliza o CEO.
Para mais informações, basta acessar: glin.com.br/
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