A campanha Junho Laranja, dedicada à conscientização sobre a doação de medula óssea, reforça, neste ano, a importância da ampliação e da renovação contínua do cadastro de voluntários no Brasil. Embora o país possua um dos maiores registros de doadores do mundo, milhares de pacientes ainda aguardam a identificação de um doador compatível para realizar o transplante, procedimento essencial no tratamento de diversas doenças hematológicas.
Dados do Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome) apontam que o Brasil reúne cerca de 5,9 milhões de pessoas cadastradas. Coordenado pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca) e vinculado ao Ministério da Saúde, o sistema é o terceiro maior registro de doadores voluntários do mundo, atrás apenas das bases dos Estados Unidos e da Alemanha. O Redome também é considerado o maior cadastro mantido exclusivamente com recursos públicos.
Apesar da dimensão do registro nacional, a compatibilidade genética continua sendo um dos principais desafios para pacientes que necessitam de transplante. Segundo informações do Inca, aproximadamente 25% dos pacientes encontram um doador compatível dentro da própria família. Nos demais, a busca depende dos registros nacionais e internacionais e envolve características genéticas altamente específicas, o que reduz significativamente as chances de encontrar um doador compatível.
A dificuldade é refletida na fila de espera por transplantes. Estimativas da Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea (SBTMO) indicam que mais de 2,5 mil pessoas aguardam atualmente por um doador compatível no país. Em alguns casos, a chance de encontrar um doador fora do núcleo familiar pode chegar a uma proporção de um para cada 100 mil indivíduos.
O cenário reforça a relevância do transplante para pacientes diagnosticados com leucemias, linfomas, anemias graves e outras doenças que comprometem a produção de células sanguíneas ou o funcionamento do sistema imunológico. Nesses casos, a identificação de um doador compatível pode representar a principal alternativa terapêutica disponível e influenciar diretamente as perspectivas de recuperação.
Para Raul Canal, presidente da Anadem (Sociedade Brasileira de Direito Médico e Bioética), a dimensão do registro nacional não resolve, por si só, o desafio da compatibilidade. "O Brasil construiu uma estrutura de referência internacional na área de transplantes de medula óssea. Entretanto, a compatibilidade genética continua sendo um dos principais fatores para a segurança e os resultados do procedimento. Ter milhões de doadores cadastrados é fundamental, mas não elimina a necessidade de ampliar continuamente a diversidade genética e a representatividade do registro, além de manter os dados dos voluntários atualizados e promover campanhas de conscientização sobre o tema", afirma.
Para o especialista em direito médico, a discussão também envolve a efetividade das políticas públicas de acesso ao tratamento. "Para muitos pacientes, o transplante de medula óssea representa uma possibilidade concreta de recuperação. Quanto maior e mais diversificado for o registro de doadores, maiores tendem a ser as chances de se encontrar compatibilidades e menor pode ser o tempo de espera para o procedimento. Trata-se de uma questão diretamente relacionada ao direito à saúde e à capacidade de resposta do sistema diante de doenças graves", observa.
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