Em um movimento que pode redefinir o apoio às famílias brasileiras nas próximas décadas, profissionais de diferentes estados oficializaram a criação da Associação Brasileira de Educação Parental, a ABRAEP, iniciativa que busca estruturar e dar representatividade institucional a um campo em expansão no país. A entidade surge com o propósito de consolidar diretrizes éticas e ampliar a articulação de profissionais da área com políticas públicas.
A fundação da ABRAEP marca uma transição de um crescimento difuso do mercado da Educação Parental para um movimento de categoria estruturado, embasado e ético. Pela primeira vez, a Educação Parental passa a contar com uma entidade de abrangência nacional. O cenário atual evidencia que o Brasil enfrenta desafios persistentes relacionados ao desenvolvimento físico, emocional e cognitivo de crianças e adolescentes, além de índices elevados de violência e negligência, conforme aponta o relatório Prevenção de Violência contra Crianças, do Comitê Científico do Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI).
Nesse contexto, evidências internacionais mostram que intervenções focadas apenas nas crianças tendem a produzir resultados limitados. No entanto, quando há adesão dos pais no tratamento de jovens e, principalmente, de crianças, os impactos nos resultados são mais robustos, segundo meta-análise sobre variáveis de relacionamento terapêutico em terapia familiar e juvenil, baseada em 49 estudos e publicada na Clinical Psychology Review (volume 26). "O Brasil avançou na agenda da infância, mas ainda investe pouco na formação e no suporte estruturado oferecido aos adultos que educam crianças e adolescentes. Fortalecer pais e cuidadores é uma estratégia de prevenção social com impacto direto na saúde mental e na redução da violência", afirma Ivana Moreira, presidente da ABRAEP.
Dados demográficos dimensionam o desafio O país reúne mais de 18 milhões de crianças na primeira infância — etapa decisiva para o desenvolvimento humano — e, ao se considerar os brasileiros de até 14 anos, esse contingente chega a 40,1 milhões (19,8%) de pessoas, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no Censo 2022. As demandas das famílias passam pelos primeiros anos de vida, se estendem ao longo de toda a infância e da adolescência e necessitam de acompanhamento contínuo e qualificado.
A Educação Parental é fundamentada em evidências científicas que integram psicologia, pedagogia, neurociência, desenvolvimento humano e direito da criança e do adolescente. "Não se trata de aconselhamento informal, mas de uma prática estruturada, ética e respaldada por conhecimento científico, com foco no cuidado responsivo, no fortalecimento de vínculos seguros, na construção de ambientes familiares respeitosos e na prevenção de situações de risco ao longo da infância e da adolescência", afirma Ana Carolina Bueno, psicóloga social formada pela Universidade de São Paulo (USP) e educadora parental.
A importância do tema também ganhou respaldo jurídico recente. A Lei 14.826/2024, sancionada pelo Governo Federal, reconhece a parentalidade positiva — um dos pilares da Educação Parental — como estratégia de prevenção da violência contra crianças e adolescentes. A criação da ABRAEP dialoga diretamente com esse novo cenário legal que cria um ambiente mais favorável para iniciativas que defendem a formação e o suporte estruturado às famílias e aos cuidadores como parte das políticas de proteção social. Estruturação do campo
A nova associação não pretende substituir outras áreas que atuam no cuidado às infâncias e adolescências. Seu objetivo é delimitar a contribuição específica da Educação Parental, incentivar boas práticas, fomentar a produção científica e ampliar a representatividade institucional do setor.
Entre as prioridades estão o mapeamento de profissionais atuantes em todo o território nacional, a consolidação de diretrizes éticas, o incentivo à pesquisa e a articulação com órgãos públicos e privados para contribuir na formulação de políticas públicas mais eficazes.
A diretoria foi eleita em Assembleia de Fundação realizada em 9 de fevereiro de 2026, e a adesão já está aberta a profissionais de todo o país.
"Em um momento em que o debate sobre o fortalecimento das relações familiares ocupa espaço central nas discussões sociais sobre o desenvolvimento e prevenção das violências contra crianças e adolescentes, a criação da ABRAEP sinaliza que a Educação Parental deixa de ser uma prática dispersa e se afirma como campo estratégico para desenvolvimento social do Brasil", diz a presidente da Associação, Ivana Moreira.
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