Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, a artista visual Soberana Ziza inaugura, em 7 de março, a exposição Território de Permanência no Centro Cultural São Paulo, marcando sua segunda mostra individual e a primeira em uma instituição pública. Com curadoria de Renata Felinto, reúne pinturas, desenhos, trabalhos em tecido, pintura mural e registros audiovisuais que emergem de uma extensa pesquisa de campo sobre as matrizes do samba paulista.
Mais do que uma coincidência de calendário, a proximidade com o 8 de março amplia as camadas de leitura de um projeto atravessado por narrativas negras e femininas, ancestralidade e heranças matriarcais. A exposição resulta de uma investigação sobre as conexões entre capital e interior, construída a partir da escuta de mestras e mestres em cidades como Piracicaba, Pirapora do Bom Jesus, Santana de Parnaíba, Tietê e São Paulo, evidenciando como tradições culturais negras se deslocam, se reinventam e permanecem. Ao longo desse processo, a pesquisa também atravessa uma dimensão pessoal, ao migrar simbolicamente para um reencontro com a ancestralidade da própria artista, em diálogo com sua família, originária de Piracicaba.
"Essa exposição destaca as atuações do interior paulista nas manifestações culturais que acontecem em São Paulo. Ao longo da pesquisa, percebi que muitos dos grupos coletivos culturais negros que se estruturam na capital têm suas origens no interior. Ela também fala sobre os processos de migração e sobre a potência do interior paulista"
afirma a artista.
A produção apresentada amplia procedimentos que Ziza vem desenvolvendo nos últimos anos, especialmente a investigação da imagem figurativa e das narrativas ausentes. Um dos núcleos da mostra retoma o uso do tecido voal com sublimação, suporte que opera visualmente a tensão entre presença e apagamento.
"O uso do voal parte da compreensão de que essa história nunca será contada de forma completa. A transparência cria camadas que revelam e ocultam ao mesmo tempo"
explica a artista. "O primeiro plano é sempre o futuro. Essas figuras aparecem como eternas, em protagonismo"
complementa ela.
Além dos trabalhos em tecido, a exposição apresenta obras em madeira, material que, na poética da artista, evoca ancestralidade, enraizamento e continuidade. "A madeira traz a ideia da árvore. Essa personagem que trabalho é uma árvore: uma mulher que gera frutos. E o fruto que ela produz é a ancestralidade, o conhecimento, a memória"
conclui.
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