A dependência do Brasil em relação às grandes empresas estrangeiras de tecnologia – as chamadas big techs –, a necessidade de construir infraestrutura própria e a cooperação com países do BRICS foram os principais temas debatidos nesta quarta-feira (8) na Comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação da Câmara dos Deputados.
O debate foi solicitado pelo deputado Fausto Pinato (PP-SP) e contou com representantes do Brasil, da China e da Índia. O BRICS, atualmente com 11 países, é um fórum de articulação política e cooperação entre nações emergentes.
Os participantes concordaram que a soberania tecnológica é essencial para a autonomia de países e cidadãos na era digital.
A presidente do Fórum para Tecnologia Estratégica dos BRICS+, Isabela Rocha, criticou a dependência tecnológica do Brasil. Segundo ela, mesmo sendo um dos países que mais utilizam smartphones e tendo um polo industrial relevante em Manaus, o país ainda importa a maior parte da infraestrutura tecnológica.
Ela destacou que o cotidiano de trabalho e lazer no Brasil é mediado por plataformas estrangeiras e que a regulação dessas empresas ocorre nos Estados Unidos, o que faz com que dados brasileiros sejam processados fora do país.
“Onde nós, brasileiros, podemos promover nossos valores e preservar nossa cultura? Isso não acontece se a infraestrutura não for nossa e se a regulação não ocorrer no Brasil”, afirmou.
Poder de mercado
O consultor de políticas de ciência e tecnologia de Pequim Xiao Youdan afirmou que a concentração tecnológica em poucos países prejudica a diversidade econômica, ao concentrar cadeias de suprimentos e impor padrões que nem sempre refletem a realidade do sul global. Ele ressaltou que o BRICS reúne cerca de 40% da economia mundial, o que dá ao bloco poder de mercado para promover mudanças globais.
O integrante do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável Ergon Cugler afirmou que a soberania digital começa pela reflexão sobre “quem controla a tecnologia, por que e para quê”.
Ele defendeu a urgência da regulação. “Sem lei no ambiente digital, ficamos à mercê de regras estrangeiras que determinam nossos padrões”, disse.
Cugler destacou que os recursos gastos pelo governo com softwares e serviços externos poderiam financiar infraestrutura própria, como a criação de 86 datacenters. Segundo ele, entre 2014 e 2025 o Brasil destinou R$ 23 bilhões a contratos de softwares, serviços em nuvem e sistemas de segurança fornecidos por empresas estrangeiras.
O major-general Pawan Anand, da Índia, afirmou que o desafio é global. Segundo ele, economia e geopolítica estão sendo usadas como instrumentos de pressão entre países. Anand defendeu que, para fortalecer a cooperação, os países do BRICS precisam criar relações de confiança e interdependência mútua.
A diversidade do bloco, segundo ele, requer grupos de trabalho para compartilhar tecnologias e evitar a hegemonia de qualquer país.
O diretor do Instituto de Intercâmbio Cultural e Desenvolvimento Econômico dos Países do BRICS+, Luan Scliar, afirmou que o grupo, embora ainda não tenha caráter vinculante, deve fortalecer parcerias para impulsionar tecnologia, pesquisa e formação profissional no Brasil.
O debate foi conduzido pelo deputado Dr. Zacharias Calil (União-GO).
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