Setembro não é apenas o mês das flores. É também o Setembro Verde, campanha que simboliza a esperança de vida por meio da doação de órgãos. Cada transplante é a prova de que o “sim” de uma família pode transformar a dor em amor, além de devolver sonhos, cores e horizontes a quem espera por uma nova chance.
Foi assim com a servidora Elizangela Ximenes de Oliveira, de 41 anos, que passou boa parte da vida convivendo com a dificuldade de enxergar. Aos 14 anos, quando uma professora de física percebeu que ela forçava os olhos para entender o que estava no quadro, começou uma longa jornada de consultas, diagnósticos equivocados e óculos cada vez mais fortes.
O que parecia apenas um “alto grau” era, na verdade, ceratocone, uma doença que causa o afinamento e a deformação da córnea. “Na infância tive bronquite alérgica, e qualquer poeira me fazia coçar muito os olhos, depois de adulta descobri que isso acelerou o processo de deformação da minha córnea”. Na época ela vivia subindo o grau dos óculos e chegou a usar lentes de contato.

Depois de passar por vários profissionais, conheceu o Dr. Alexandre Fialho, no Visão do Hospital de Olhos. Que aceitou o desafio de tratar as complicações do ceratocone. “No direito eu tinha 20 graus que era o que dava para ser aferido. No esquerdo era 7 graus. Ai ele falou: vamos começar colocando o anel de ferrara”.
Foi esse mesmo médico que colocou Elizangela na fila do transplante de córnea em 2019. A espera foi marcada pelo medo e pela esperança, até que, em novembro de 2023, recebeu a ligação que mudaria tudo. “Era uma sexta-feira. Disseram que havia chegado a minha córnea e eu tinha 20 minutos para responder. Foi emocionante. Fiz a cirurgia em Dourados e deu tudo certo. Graças a Deus e à generosidade de uma família que disse sim”.
O impacto foi imediato. Após a recuperação, Elizangela descreve a experiência como se tivesse passado a enxergar em “HD”. “Antes eu tinha menos de 15% da visão no olho direito. Hoje tenho mais de 80%. Passei de mais de 20 graus de miopia para 1,25. Foi como se eu tivesse ganhado uma nova vida”, comemora.
Além da visão, o transplante trouxe também um novo amor: o esporte. Como parte do processo de recuperação, só caminhadas leves eram permitidas. Mas, pouco a pouco, Elizangela descobriu na corrida uma nova paixão. “Vi um livro na farmácia sobre correr 5 km em oito semanas e aquilo ficou na minha cabeça. Comecei a treinar e, em junho deste ano, participei da minha primeira corrida, em Jateí. Em setembro, corri em Dourados. Agora quero chegar aos 7 km”, conta, animada.

Mais do que números, cada passo representa gratidão. “Receber uma córnea é sentir um amor gigantesco. Imagino a dor da família, mas essa dor foi transformada em esperança para mim. Por isso, peço que as pessoas conversem com seus familiares e deixem claro o desejo de doar. O ‘sim’ pode mudar uma vida inteira, como mudou a minha”, diz emocionada.
Para Elizangela, o Natal de 2023, menos de um mês após o transplante, foi o mais especial de todos. Foi o primeiro celebrado com a certeza de que a vida tinha ganhado novas cores. “Ainda não podia estar com todo mundo por conta da recuperação, mas foi o Natal mais emocionante da minha vida. Hoje, cada vez que corro, é como se dissesse obrigada à família que me deu esse presente”, finaliza.
Mato Grosso do Sul
Em Mato Grosso do Sul, o gesto de uma família como a que mudou a vida da Elizangela ainda é exceção. A negativa familiar para doação ultrapassa 60%, o que significa que, em mais da metade das entrevistas realizadas com familiares de potenciais doadores, a autorização não é concedida — mesmo quando há possibilidade clínica de salvar vidas.
Apesar disso, os números da Central Estadual de Transplantes da SES (Secretaria de Estado de Saúde) apontam para avanços importantes: de janeiro a setembro de 2025, foram realizados 218 transplantes de córnea, 39 de fígado, 16 de rim e 4 de ossos, beneficiando diretamente pacientes que aguardavam por uma nova chance.
Esses dados reforçam a importância do Setembro Verde como um mês de conscientização e de diálogo em família, para que mais histórias de esperança, como a da Elizangela, possam ser escritas.
Mireli Obando, Comunicação Detran-MS
Foto: Arquivo pessoal e Rachid Waqued
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