A tentativa de João Henrique Catan (Novo) de se apresentar como alternativa da direita em Mato Grosso do Sul esbarra em uma contradição: seus ataques a Eduardo Riedel (PP) podem favorecer justamente o PT. Ao concentrar esforços contra o governador, Catan assume o risco de enfraquecer a candidatura que reúne importantes partidos da direita sem conseguir transformar esse desgaste em crescimento próprio.
O contraste aparece dentro do próprio Novo. Ricardo Salles anunciou nesta segunda-feira (28) a desistência da disputa pelo Senado em São Paulo para apoiar Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL), mais bem posicionados nas pesquisas. Entre as adversárias estão Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede).
Em Mato Grosso do Sul, Catan segue na direção oposta: mantém a candidatura e concentra críticas na aliança que sustenta a reeleição de Riedel, composta por partidos como PL, Republicanos, PSDB e PSD.
Os números, atribuídos à pesquisa Quaest divulgada pela TV Morena na sexta-feira (25), mostram Catan em quarto lugar, com 3% das intenções de voto. À frente dele aparecem Fábio Trad (PT), com 12%, e Delcídio do Amaral (PRD), com 6%. Riedel lidera com 51%.
Nesse retrato eleitoral, o adversário mais bem posicionado para enfrentar o governador em um eventual segundo turno é Trad. Portanto, se os ataques de Catan contribuírem para impedir uma definição no primeiro turno, o beneficiário pode ser o candidato petista.
Apesar de haver fortes sinais, isso não comprova acordo ou intenção de ajudar o PT. Expõe, porém, uma consequência possível da estratégia adotada: Catan ataca Riedel, mas quem pode colher o resultado é Trad.
Para quem reivindica espaço entre os eleitores conservadores, é uma contradição que exige explicação. O discurso contra a esquerda perde força quando a atuação eleitoral pode ampliar as chances dela.
A forte tensão no posicionamento do candidato. No debate promovido pelo site Primeira Página e pela Morena FM, Catan afirmou que não estava ali para defender Flávio Bolsonaro. Posteriormente, publicou vídeos nos quais se apresenta como bolsonarista e questiona a preferência por Riedel, cuja aliança estadual, segundo o portal, contou com a anuência de Flávio.
Catan tem o direito de disputar a eleição e criticar o governador. Mas também está sujeito à cobrança sobre a coerência de seu discurso e os efeitos de sua campanha. Apresentar-se como representante da direita não o coloca acima desse exame.
Enquanto Salles abre mão de uma candidatura para fortalecer aliados em São Paulo, Catan insiste em enfrentar, em MS, uma composição que inclui o próprio PL. A diferença entre as duas posturas torna inevitável o questionamento sobre suas prioridades políticas.
Até aqui, o confronto não colocou Catan entre os principais concorrentes de Riedel no levantamento citado. A pergunta que fica é: Já que ele não impôe risco a candidatura de Eduardo Riedel, qual a intenção de enfraquecer quem justamente recebeu apoio daquele que, Catan prega como sua liderança política nacional?