O uso e a divulgação do GHK-Cu — peptídeo ligado ao cobre promovido nas redes sociais como possível aliado para crescimento capilar — chamam atenção de pessoas que enfrentam queda de cabelo após emagrecer. Mas, antes de aderir a fórmulas, suplementos ou protocolos vendidos como inovadores, é essencial investigar a origem do problema.
O médico clínico geral Dilson Maurer explica que a queda de cabelo observada durante ou após a perda de peso não deve ser atribuída automaticamente ao Mounjaro, medicamento à base de tirzepatida, nem tratada com soluções divulgadas na internet. O quadro pode estar relacionado ao emagrecimento acelerado, à restrição calórica, à baixa ingestão de proteínas, a deficiências nutricionais, alterações hormonais, doenças recentes ou ao estresse metabólico sofrido pelo organismo.
“É compreensível que o paciente associe a queda ao medicamento que começou a usar, principalmente quando vê conteúdos nas redes sociais falando sobre Mounjaro e cabelo. Mas dizer simplesmente que a tirzepatida causa queda de cabelo é uma conclusão apressada. É preciso avaliar o contexto inteiro”, afirma Maurer.
O título também mantém um apelo de atualidade sem transformar o GHK-Cu em uma promessa de tratamento. Estudos e revisões disponíveis apontam que o composto é promissor, sobretudo em aplicações tópicas, mas a evidência clínica ainda é limitada, com estudos pequenos e ausência de confirmação robusta para considerá-lo tratamento de primeira linha para alopecias. Já o uso sistêmico ou injetável requer cautela adicional por falta de dados consistentes de segurança em longo prazo.
O aumento do uso de medicamentos à base de tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, também ampliou os relatos de pacientes que percebem maior queda de cabelo durante ou após o emagrecimento. Para o médico clínico geral Dilson Maurer, porém, a relação precisa ser analisada com cautela: a perda dos fios não deve ser automaticamente atribuída ao remédio.
“Dizer simplesmente que a tirzepatida causa queda de cabelo é uma conclusão apressada. O que observamos com frequência é um quadro chamado eflúvio telógeno, que pode surgir após uma perda de peso importante, restrição calórica, ingestão insuficiente de proteína ou outra mudança metabólica relevante”, explica o médico.
O eflúvio telógeno é uma forma comum de queda difusa e temporária, desencadeada quando o organismo passa por algum tipo de estresse. Emagrecimento rápido, dietas muito restritivas, doenças, febre, cirurgias, alterações hormonais e períodos de forte tensão emocional estão entre os fatores capazes de alterar o ciclo capilar.
Queda pode aparecer meses depois
Segundo o Dr. Dilson Maurer, uma das características que confundem pacientes é o intervalo entre o início do processo de emagrecimento e a percepção da queda.
“O cabelo possui um ciclo próprio. Depois de um gatilho metabólico, parte maior dos folículos pode migrar precocemente para a fase de repouso, chamada fase telógena. Por isso, a queda nem sempre começa quando a pessoa inicia a medicação ou a dieta. Ela costuma aparecer semanas ou meses depois”, afirma.
Esse fenômeno recebe o nome de eflúvio telógeno. Em vez de ocorrer uma falha localizada no couro cabeludo, é comum que a pessoa note fios em maior quantidade no banho, no travesseiro, na escova ou nas roupas.
“Em muitos casos, é um quadro com bom prognóstico. Quando o fator desencadeante é identificado e corrigido, há possibilidade de recuperação. Mas isso não significa que toda queda seja igual ou que todos os pacientes precisem do mesmo tratamento”, pontua Maurer.
A perda rápida de peso é reconhecida como possível gatilho para esse tipo de alteração capilar, especialmente quando há redução brusca de calorias ou deficiência de nutrientes importantes para o funcionamento do organismo.
Mounjaro não explica todos os casos
O clínico ressalta que a tirzepatida pode estar presente no contexto da perda de peso, mas não é possível presumir que seja a causa isolada do problema sem avaliação médica.
“A pessoa pode ter emagrecido depressa, reduzido demais a alimentação, passado a ingerir pouca proteína, ter anemia, deficiência de ferro ou vitamina B12, alteração da tireoide, doença recente ou estresse intenso. Tudo isso precisa entrar na investigação”, diz.
Outro ponto relevante, conforme o médico, é que o emagrecimento pode tornar mais perceptível uma condição já existente: a alopecia androgenética, popularmente conhecida como calvície de padrão hereditário.
“Há pacientes que já tinham uma predisposição genética para afinamento progressivo dos fios. Um período de emagrecimento ou de estresse metabólico pode acelerar a percepção da perda ou expor um problema que estava em evolução havia anos. É por isso que não se deve tratar toda queda como se fosse exclusivamente eflúvio telógeno”, afirma.
A avaliação considera a velocidade da queda, o padrão de rarefação, o histórico familiar, os medicamentos em uso, a dieta, a ocorrência de doenças recentes, alterações menstruais ou hormonais e o aspecto do couro cabeludo. Dependendo do caso, exames laboratoriais podem ajudar a identificar deficiências nutricionais ou alterações clínicas que precisam ser corrigidas.
“Queda de cabelo” não é diagnóstico
Para Maurer, o erro mais comum é transformar um sintoma em diagnóstico. A queda de cabelo pode ter múltiplas causas e exige análise individualizada.
“Quando alguém afirma que está perdendo cabelo, a primeira pergunta precisa ser: qual tipo de queda? É uma queda difusa? Há falhas arredondadas? Existe descamação, coceira ou inflamação no couro cabeludo? Há afinamento gradual na região frontal ou no topo da cabeça? A resposta muda completamente a linha de investigação”, explica.
O médico destaca que é fundamental observar também o contexto alimentar. Em pacientes que utilizam medicamentos para emagrecimento, a diminuição do apetite pode levar à redução excessiva do consumo de proteínas e de outros nutrientes.
“Não se trata de comer em excesso para evitar queda de cabelo, mas de emagrecer com planejamento. Uma perda ponderal saudável precisa preservar massa muscular, garantir proteína suficiente e evitar dietas muito pobres em energia e micronutrientes. O cabelo pode funcionar como um sinal de que o organismo passou por uma mudança importante”, afirma.
Suplementos por conta própria podem piorar o problema
A busca por uma solução rápida faz com que muitas pessoas recorram a polivitamínicos, cápsulas, gummies divulgadas por influenciadores e fórmulas manipuladas sem investigação adequada. Para Dilson Maurer, essa prática pode atrasar o diagnóstico e, em alguns casos, trazer riscos.
“Mais suplemento não significa mais cabelo. Se existe deficiência de ferro, vitamina B12, zinco ou outro nutriente, ela deve ser identificada e corrigida de forma direcionada. Mas tomar um conjunto de vitaminas sem saber o que está faltando não substitui consulta, exame físico e investigação clínica”, alerta.
Ele cita o selênio como exemplo. O mineral participa de processos importantes do organismo, mas tanto a deficiência quanto o excesso podem estar associados a alterações capilares.
“Há pessoas que tomam diversos produtos ao mesmo tempo — polivitamínico, cápsula para cabelo, fórmula manipulada e suplemento esportivo — sem perceber que estão repetindo ingredientes. O excesso de alguns compostos pode ser prejudicial. Antes de suplementar, é preciso saber se há indicação e em que dose”, afirma.
O cuidado inicial recomendado para quadros de eflúvio telógeno inclui identificar o gatilho, corrigir alterações nutricionais ou hormonais quando comprovadas e manter alimentação adequada, com atenção especial à ingestão proteica.
GHK-Cu exige cautela
Outro produto que ganhou espaço em conteúdo de estética e protocolos divulgados nas redes sociais é o GHK-Cu, um peptídeo associado ao cobre. Maurer ressalta que é necessário separar pesquisas experimentais de tratamentos com eficácia clínica bem estabelecida para queda de cabelo.
“Existe uma diferença importante entre um composto estudado em mecanismos celulares, pesquisas pré-clínicas ou aplicações tópicas específicas e uma terapia comprovada, segura e indicada para uso sistêmico. O fato de algo aparecer nas redes sociais como inovador não significa que já exista evidência suficiente para recomendá-lo a todos os pacientes”, diz.
Segundo ele, a análise deve levar em conta a formulação, a procedência, a dose, a via de uso e as condições de saúde da pessoa. “O cobre é um micronutriente essencial. A preocupação não é o simples fato de uma substância conter cobre. O problema está em exposição inadequada, uso sem acompanhamento e produtos de origem ou concentração incerta.”
Há lacunas relevantes de evidência sobre segurança de formas sistêmicas, como injetáveis ou doses elevadas de GHK-Cu. Dados disponíveis são mais limitados do que os necessários para estabelecer esquemas seguros de uso prolongado, especialmente fora de indicação médica.
Estresse cotidiano também pesa
Além do emagrecimento, Dilson Maurer chama atenção para o impacto do estresse cotidiano sobre o organismo. Privação de sono, jornadas exaustivas, ansiedade persistente, doenças intercorrentes e mudanças importantes na rotina podem contribuir para um quadro de queda temporária.
“O paciente muitas vezes está emagrecendo, trabalhando muito, dormindo mal e se alimentando menos. Não é correto escolher apenas um fator e ignorar os outros. O organismo responde ao conjunto dessas mudanças”, explica.
Ele alerta, ainda, que sintomas como fadiga mental, dificuldade de concentração, sensação de pensamento mais lento ou falhas de memória não devem ser tratados automaticamente como consequência natural do estresse ou do envelhecimento.
“Esses sintomas são inespecíficos e merecem avaliação. Podem estar relacionados a sono ruim, estresse, ansiedade, deficiência nutricional, alterações metabólicas, medicamentos e diversas outras condições. Não é recomendável fazer automedicação ou atribuir tudo a um único suplemento ou tratamento estético”, afirma o médico.
Investigação é o caminho seguro
A orientação final do médico é que pacientes com queda de cabelo após emagrecimento não interrompam, iniciem ou alterem medicamentos por conta própria. O ideal é procurar avaliação profissional para identificar se há eflúvio telógeno transitório, deficiência nutricional, alopecia genética ou outra condição associada.
“Em muitos casos, há recuperação. Mas a solução não está necessariamente em uma cápsula, uma goma vitamínica ou um protocolo vendido nas redes sociais. É preciso entender o ciclo capilar, avaliar o estado geral de saúde e tratar a causa. O cabelo pode ser um marcador de que algo mudou no organismo — e essa mudança merece atenção”, conclui Dr. Dilson Maurer.